Sobre Maddog, a palma de buda, e a moral blogueira
Há uma antiga história budista, sobre humildade e auto-conhecimento, que sempre levo comigo: havia um macaco entre os deuses que era um verdadeiro inferno: poderoso e hábil, vivia pregando peças nos outros deuses, roubava elixires, dava cuecão no povo, enfiava dedo molhado na orelha das deusas, um saco. Entre as centenas de brincadeiras e peças que pregava, esse macaco acabou conseguindo alguns poderes extras com os elixires divinos que roubava: era capaz de voar em velocidade altÃssima, e era imortal. O que só o tornou ainda mais arrogante, já que nada que fizessem contra ele tinha efeito.
Os outros deuses, de saco cheio, foram reclamar com o Interney Buda. Este, percebendo que o macaco já estava passando dos limites, resolveu dar-lhe uma lição de humildade: Buda colocou o macaco na palma da sua mão, e fez um desafio a ele – Se conseguisse sair da palma da mão de Buda sem que ele percebesse, poderia ter o que quisesse. O macaco arrogante, aceitou o desafio e voou por florestas, montanhas e infinitos oceanos, sem parar. Quando finalmente encontrou o que parecia ser o fim do mundo, ele percebeu que haviam algumas rochas ali, e deixa escrito ‘Eu estive aqui’, como prova de sua vitória.
Ao volta r para reclamar seu prêmio, o macaco é surpreendido quando Buda lhe diz que em nenhum momento o ele havia saÃdo da palma de sua mão. Indignado, o macaco conta que deixou uma marca em uma rocha como prova de que havia vencido. O Buda pede então para que o macaco olhe para um dos dedos da mão dele, e lá o macaco encontra a mesma frase que ele havia escrito na rocha. Ou seja, o macaco NUNCA havia saÃdo da palma de Buda. Com isso, o macaco acabou se tornando mais humilde, reconhecendo que ele nunca seria maior que alguns deuses.
Algumas centenas de anos depois, estou pegando meu almoço no primeiro dia do Campus Party, quando vejo que bem na mesa ao lado está sentado John ‘Maddog’ Hall. O lado fanboy falou mais alto, e comentei com as pessoas que estavam na mesa, entusiasmado com o fato de estar sentado ao lado de alguém facilmente reconhecido por milhões de pessoas. Nenhuma das pessoas que sentou na mesa comigo soube reconhecer o bom velhinho. Diga-se de passagem, nem algumas pessoas com quem eu conversei. (Infelizmente, não fui conversar com ele ou tirar fotos com John, já que o mesmo estava almoçando, e considero desagradável atrapalhar alguém nesse momento sagrado.)
Vejam, uma pessoa que é praticamente a cara do Software Livre, que já viajou o mundo todo e é conhecido tanto fora quanto dentro da comunidade, estava ali, almoçando como qualquer mortal, e passeando tranquilamente pelo evento, conversando com as pessoas, conhecendo os estandes, e tudo o mais. Na maioria das vezes, sem nem mesmo ser reconhecido.
Não é interessante que, ao mesmo tempo, tenhamos tanta discussão na blogosfera envolvendo discussões sobre relevância e mérito entre pessoas que, no máximo, conseguiriam ser prontamente reconhecidas por um universo muito menor de pessoas? É justamente essa postura tão discrepante entre dois mundos que me desagrada: Uns fazem tão pouco quanto escrever para a internet, mas agem e falam como se estivessem mudando o mundo. Outros, estão realmente mudando o mundo, e agem como pessoas normais.
Talvez, seja hora de revermos nossos conceitos e reavaliarmos nossas posturas. Arrogância não vem automaticamente com a fama, como bem prova o Papai Noel do Software Livre. Ao nos deixarmos levar por essa onda de relevância, mérito, meritocracia, quantidade de leitores e o diabo a quatro, podemos acabar nos tornando como o macaco da lenda.
E, de macacos, já chega o rolo do Estadão.

Não canso de me surpreender com a turma do 


