Karate Kid (2010) – Legal, mas faltou um pouco de Garça
Quando ouvi falar que estavam planejando um remake de “Karate Kid“, a primeira coisa que pensei foi “Legal, vão matar outro clássico”. E não é difÃcil de imaginar o motivo: nos últimos anos tivemos nos cinemas uma onda de remakes de filmes e séries antigos, a maioria de qualidade duvidosa (e estou sendo bonzinho na avaliação). A idéia de que o mesmo aconteceria com o novo Karate Kid passava pela cabeça de todos, ainda mais quando as primeiras informações começaram a surgir, com um ator muito jovem no papel de “garoto que apanha” e com o Jackie Chan como o mestre, e que na verdade a luta do filme não seria nem mesmo Karatê (que se originou no Japão), mas sim Kung Fu (originário da China).
Com a expectativa baixa, meu amigo Paul Torrent me convidou para uma pré-estréia exclusiva na minha casa, e posso dizer que apesar das mudanças, o Karate Kid de 2010 é um filme que merece ser assistido. Tem problemas sérios no roteiro, mas se você ignorar esses detalhes, o filme não desonra o original.
Primeiro a história. Provavelmente você já conhece, já que pouco muda com relação ao original, mas em favor ao Eric Franco, darei uma resumida:
Garoto que vive só com a mãe é obrigado a se mudar para uma nova cidade, onde não conhece ninguém e não tem amigos. Ao se aproximar de uma garota, ele começa a sofrer perseguição de garotos do colégio que lutam Karatê, e vai precisar contar com a ajuda do zelador do condomÃnio em que ele vive, um velho japonês que conhece o verdadeiro Karatê. Juntos, eles treinarão Karatê de forma pouco convencional para que o garoto possa resolver seus problemas com os delinquentes em um campeonato de Karatê!
Bem simples, na verdade, o caso clássico do garoto fraco que acaba treinando e no final consegue vencer seus inimigos e ficar com a garota.
O problema é que nesse novo filme acontecem várias mudanças no roteiro: saem os garotos de 16-17 anos e entram garotos de 11-12. Sai a mudança de cidade e entra a mudança de paÃs, direto para a China. Saem os treinamentos sem sentido e entram treinamentos que passam uma lição de moral importante. E sai o japonês com cara de sábio e entra o chinês com cara de mendigo. AÃ, começam os problemas no roteiro, como eu falei no começo.
De tudo, o que mais me incomodou foi a mudança na idade dos personagens: no original,  é perfeitamente claro que Daniel Larusso tem um interesse a mais na garota, e é isso que impulsiona todos os conflitos dentro da história. Na refilmagem, os personagens são muito jovens para que esse conflito exista. E, no final, todo o triângulo amoroso some e dá espaço à busca pela amizade. E os jovens que perseguem Dre Parker (Jaden Smith, o personagem principal do filme), só fazem isso porque… eles são racistas. Afinal, onde já se viu um americano negro querer ser AMIGO de uma chinesa na China, né?
A relação entre Dre e Sr. Han (Jackie Chan, mostrando que ainda tem um certo fôlego) não tem o mesmo carisma que a relação entre Daniel e Sr. Miyagi. No original, os dois acabam criando uma relação próxima à de um pai e filho, e no novo Jackie está constantemente afastado, sério, sisudo, sem demonstrar preocupação visÃvel com Dre.
E aà chegamos ao principal furo no roteiro: No original, Daniel já era um jovem com certa autonomia, e a mudança foi apenas de cidades, dentro do mesmo paÃs. Fazia sentido imaginar que a mãe dele não se importaria com o rapaz saindo com um velho para treinar. No novo filme, Dre é MUITO novo, não sabe nada de chinês (como demonstrado logo no começo do filme) e fica estranho aceitar que a mãe dele deixaria ele sair China afora com um homem muito mais velho. Consigo até imaginar o diálogo:
- “Mãe, eu que sou baixinho e mirrado posso viajar de trem até o interior da China com um homem que não conhecemos e que tem totais condições de me sequestar, abusar de mim por longos perÃodos, e quando estiver enjoado me vender como escravo para uma fábrica da Foxxconn, onde serei obrigado a fabricar iPhones por US$ 0,0021 a hora?”
- “Claro, filhinho. Mas leve a blusa”.
Sério. A mãe do Dre seria presa por abandono na vida real. Mas divago.
Ainda sobre os personagens, o romance amizade entre Dre e Mei Ying carece totalmente de carisma, e a culpa recai principalmente sobre a atriz que interpreta Mei, que parece estar sempre tensa, como se estivesse sempre usando uma calcinha cinco números abaixo do ideal. Assim, toda a motivação do filme recai sobre a rixa entre Dre e Cheng, mas justamente essa rixa é pouco trabalhada, já que o filme decide gastar mais tempo com o treinamento de Dre e a relação amizade dos dois pombinhos coleguinhas.
Destaque especial para o mestre de Cheng, que tem o PIOR topete da história da humanidade. Não é dificil imaginar porque o sujeito é tão rancoroso e mal humorado, se eu tivesse um corte de cabelo daqueles também seria muito mal.
As cenas do treinamento de Dre e as lutas empolgam, até pelos lugares escolhidos, com belas paisagens e boas tomadas de cena. Nesse ponto a refilmagem consegue ser até mais interessante que o original, por mostrar vários locais da China e algumas nuances do VERDADEIRO Kung Fu. Na verdade, chama a atenção a transformação corporal pelo qual passa Jaden Smith, que fica com 0% de gordura corporal, veias saltando e músculos salientes por todo o corpo, basicamente um modelo que estampa aquelas embalagens de Mega Mass. Sério, o moleque REALMENTE treinou durante o filme!
O campeonato no final do filme também é interessante, mas o diretor cometeu um pecado fatal: esqueceu de incluir A MONTAGEM
Apesar dessa falha imperdoável, o filme se segura bem no final, e você até chega a torcer pelo Dre. E, mesmo sem o Golpe da Garça, nos últimos minutos você vai estar lá, apoiado pra frente, e gritando “VAI!”.
No final, o Karatê Kid de 2010 tem vários problemas, resgata pouco do carisma do original (culpa, principalmente, das escolhas da produção, como citei acima), e é o tÃpico filme que acabará sendo exibido até a exaustão na Sessão da Tarde.
E é aà que ele honra o original, ao ser uma diversão simples e sem pretensões, e ao proporcionar uma história que provavelmente vai encher as academias de artes marciais mundo afora com milhares de pré-adolescentes querendo aprender “aquele golpe muito louco que o moleque usa no final do filme”. Dificilmente um candidato ao Oscar, mas uma boa diversão para a criançada. O que é uma pena, já que o filme foi lançado aqui com dois meses de atraso e DEPOIS do periodo de férias escolares. Provavelmente, teria feito mais sucesso se lançado um mês antes…




