A Mac App Store e mais uma importante lição sobre marketing pessoal
Se você acompanha notícias sobre tecnologia, deve ter reparado que o assunto mais recorrente da semana passada era o lançamento da Mac App Store, um aplicativo para OSX que basicamente faz o mesmo que a App Store do iPhone, mas dessa vez com programas para desktop. Assim, é possível comprar, baixar e instalar um pouco mais de 1.000 aplicativos com pouquíssimos cliques, e apenas inserindo sua senha do iTunes.
Legal, não? Agora, sem precisar procurar pela internet, é possível ter centenas, milhares de aplicativos no seu desktop, a maioria sem nem mesmo precisar pagar, ou com preços bem menores do que os mesmos programas vendidos nas lojas, com caixinha, CD, e manual de instruções. Mas… e se eu disser que esse conceito já existe há mais de 10 anos? E se eu disser que existe um grupo de usuários que já utilizam esse conceito de “baixe e instale em apenas um clique” desde 1998?
O APT é uma solução que nasceu no Debian Linux, existe desde 1998, e no frigir dos ovos tem um conceito que é exatamente o mesmo da App Store, sem tirar nem por. Você quer um programa, pede para que esse programa seja baixado e instalado, e o processo é realizado com o mínimo de interação humana. Tecnicamente, não há nada que a App Store não faça que o APT não faça também. Inclusive, o Ubuntu Software Center, uma implementação do APT para o Ubuntu, permite até mesmo que você compre programas.
Vejam bem, não estou acusando a Apple de plágio ou qualquer coisa do tipo, longe de mim. Mas é curioso para mim que tantos meios de informação (como blogs e jornais) e “formadores de opinião” digam a todos os pulmões que a Mac App Store é “revolucionária” ou “única”. Não é. Qualquer um que enxergue fora do mundinho Microsoft/Apple sabe disso.
Mas, se o APT já permitia essa “revolução” toda ainda em 1998, porque ele é ignorado ou nem mesmo levado em consideração quando falamos de sistemas que me permitam gerenciar aplicativos no sistema operacional? A explicação é bem simples: na vida real, não importa o quê você faz, mas como você diz que fez.
A comunidade Open Source tinha uma necessidade: facilitar a instalação de aplicativos e a solução de dependências do dpkg. E o APT surgiu. E eles disseram “OK, nossa, que legal, problema resolvido”. A Apple tinha a mesma necessidade, mas ela não só desenvolveu a solução, como também embrulhou tudo em uma interface bonita, intuitiva e comercialmente atraente. Assim, a atenção da mídia e dos usuários foi maior.
Pode parecer absurdo, mas não há nada de errado nisso. A comunidade Open Source precisa aprender a “se vender” melhor. Há centenas, milhares de soluções livres que funcionam melhor que as alternativas pagas, ou nem mesmo encontram concorrentes pagos. Mas pela falta de um processo que chame a atenção para os usuários, essas mesmas soluções hoje vivem sub-utilizadas.
Basta ver a maioria das interfaces de aplicativos Open Source: elas fazem exatamente o que deveriam fazer, mas muitas vezes de uma maneira crua, seca, sem qualquer atrativo maior para o usuário. E isso faz diferença. E não sou eu quem está dizendo isso, é a Apple. Basta ver a maioria dos lançamentos dela nos últimos anos, há pouquíssima coisa realmente nova ali, o resto é uma leva de soluções que já existiam mas que foram empacotadas de uma forma tão atraente que as pessoas acabam querendo ter o produto de qualquer jeito.
O mesmo vale para você, enquanto profissional. Você pode ser o cara mais competente do universo, mas se não sabe vender o que faz, acaba sendo ofuscado pelo cara que não faz nada de surpreendente mas já se anuncia como “expert em PHP” desde o primeiro Hello World. Quantas pessoas você talvez não conheça que são exatamente assim?
Sinceramente, não é um processo simples, mas é necessário. Se o Software Livre quiser realmente ganhar uma fatia visível do mercado, a comunidade precisa começar a “vender” melhor as idéias que tem, precisa começar a mostrar o quão revolucionárias são suas idéias, mas de uma forma que as pessoas comuns entendam e se sintam interessadas.
Caso contrário, o Linux como um todo continuará sendo sempre o patinho feio dos Sistemas Operacionais para usuários, e descobrindo só depois de mais de 10 anos que tinham desde o começo uma solução revolucionária em suas mãos.









