De como a tecnologia não matou a imaginação

Por , 22 de novembro de 2011 10:27


Quando criança, eu era fã incondicional daquelas séries de heróis japoneses. Ultraman, Spectreman, Changeman e Jaspion tomavam vários minutos do meu dia com suas histórias cheias de dramas, personagens imperfeitos e vilões que, apesar de quererem conquistar Tóquio o mundo, tinham uma certa honra. Quem não se emocionou quando o Pirata Espacial Buba preferiu se sacrificar a deixar que sua melhor amiga (e ele mesmo!) virasse um monstro?

E ali, nos meus seis, sete, oito anos, eu via aqueles personagens fazendo coisas incriveis na TV e meu olhos brilhavam, pensando em como seria legal ter o uniforme deles, as armas deles, talvez até o robô gigante deles. Mesmo que fossem de brinquedo, e não de verdade.

O único inconveniente é que naquela época minha família não tinha dinheiro nem para coisas básicas, e qualquer boneco ou brinquedo que não fosse apenas um bloco de plástico tóxico pintado com tinta cheia de chumbo custava o PIB de um pequeno país. Eram tempos sombrios.

Felizmente, minha imaginação não podia ser contida por detalhes bobos como falta de dinheiro ou morar num bairro afastado: os vários terrenos baldios e campos abertos do bairro eram a nossa “pedreira da Toei”, onde eu e meus amigos imitávamos cenas de lutas. Eu e meu primo “roubávamos” o caríssimo gravador e toca-fitas da minha tia para gravarmos alguns nomes de golpes e frases importantes das séries (“ESPADA RELÂMPAGO! SUPER THUNDER BOLT!”) e usávamos esse som durante as brincadeiras. E eu ainda usava folhas e mais folhas de papel de cadernos antigos da minha irmã (e muita cola) para tentar recriar alguns equipamentos.

Sim, era tosco, mas era o que tínhamos.

E é engraçado ver hoje em dia luditas que também viveram essa época comentando sobre como a tecnologia tem acabado com a imaginação das crianças. Videogames ultra-realistas, filmes que usam CG para tornar os personagens mais humanos, a própria facilidade de usar computadores, celulares e afins, tudo isso estaria acabando com a imaginação das crianças. Elas não seria mais capazes de olhar para um pedaço de papel e, sei lá, imaginar uma espada ali.

Eu penso um pouco diferente. A tecnologia não atrapalha nem limita a imaginação. O mundo chato e cheio de regras em que vivemos é que faz isso. Na verdade, a tecnologia tem a chance de dar vida aos sonhos, venham eles de uma criança 3 anos ou de uma de 30. Basta saber procurar as ferramentas certas.


(link para o vídeo, se no feed não aparecer)

O vídeo acima mostra três aplicativos disponíveis para celulares Android que simulam os “henshin devices” de alguns heróis japoneses. Todos disponíveis de graça, só baixar e instalar (como eu mesmo fiz). E ainda há vários outros disponíveis, tanto para iOS quanto para Android (mas, estranhamente, os que encontrei para iOS exigem o jailbreak para funcionar…). E é tão divertido quanto qualquer outro brinquedo que eu fazia com papel.

E há vários exemplos no dia-a-dia de como o desenvolvimento tecnológico foi útil. Videogames que respondem a movimentos me vêm à cabeça nesse momento. Para um adulto muitos dos jogos criados para o Kinect, Wii e Playstation Move pode parecer bobos, mas para uma criança? Horas de diversão. E de deixar a imaginação rolar solta.

Sempre haverá o saudosismo de épocas mais simples (eu mesmo ainda não consigo me acostumar aos livros e quadrinhos digitais, acho livros em papel muito mais cômodos), mas é inegável que, ao contrário do que os velhos chatos dizem, não há época mais divertida para se viver que essa. Que criança (não importa a idade) não vai se divertir podendo se transformar no personagem que quiser usando um aparelho que cabe no bolso? :)

2 comentários para “De como a tecnologia não matou a imaginação”

  1. Leandro disse:

    Concordo com o texto. No entanto, no meu caso, quando jogava Atari (principalmente Pitfall), o fator imaginação era bem alto em comparação com os dias de hoje quando eu jogo um adventure mais moderno, para criar uma atmosfera pessoal enquanto jogava (eu cheguei a desenhar as fases no caderno de acordo com o que a minha mente produzia com relação ao jogo! :] ). Não existe ser mais criativo no mundo do que uma criança, independente da época. Tenho pena até hoje das plantas da rua quando os meus colegas e eu saíamos de casa depois dos tokus, com cabos de vassoura espadas detonando tudo! Cheguei também a fazer as armaduras de CDZ em papel com os meus primos menores, e os moleques viajavam naquilo.
    Realmente o mundo, principalmente no sistema educacional, é que nos impõe limites desde a infância.
    Depois que assisti o vídeo com a palestra: ‘As escolas matam a criatividade”, de Sir Ken Robinson no TED (tem no YT legendado), e outros vídeos relacionados ao tema, acredito profundamente nisso.

  2. André disse:

    Vou tentar baixar esses aplicativos que mostraram no video…será que consigo?

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