Artes Marciais X Mangá, Anime e Games

Por , 27 de abril de 2009 18:24


Dias atrás, enquanto limpava meu HD para instalar o Windows 7, encontrei uma pasta com arquivos que eu julgava perdidos: vários backups e originais da época em que eu mantinha o Anime Point com a ajuda de um grande amigo. O post abaixo é um texto escrito a quatro mãos, em 2000~01, sobre artes marciais em animes e games. Como ainda não perdeu a validade (apesar da maioria dos jogos e animes já ter mais de 10 anos de idade…), e o texto é REALMENTE bom, resolvi republicar aqui, com algumas pequenas alterações. Enjoy!

Uma coisa pela qual as produções japonesas, sejam mangá e animê, não costumam primar é pelo apuro científico. Ou, melhor dizendo, pelo uso de uma coisa que alguns escritores costumam chamar de pseudo-ciência, que consiste em “explicar” através de teorias pouco conhecidas ou obscuras poderes e fenômenos fantásticos em uma história. Por exemplo, a imensa maioria dos “mechas” criados no Japão é cientificamente impossível, seja por uma questão de peso, energia necessária para movimentar uma estrutura do tamanho de um prédio, armamentos mirabolantes, ou, o que é mais comum, por tudo isso junto e um pouco mais.

Turma

Ao lado: Cavaleiros do Zodíaco[bb] – Jovens japoneses canalizando uma energia universal através de técnicas marciais para proteger uma deusa grega … Dizendo assim dói, não? Além do grau normal de fidelidade da maioria das produções japonesas para com artes marciais, Cavaleiros ainda altera o nome de ki para cosmo. Exemplo perfeito de como tentar parecer novo e dispensar alguns dias de pesquisa. Já no ocidente, poderes de super-heróis são explicados como poderes vindos de mutação genética, “acidentes” com radiação ou armaduras entupidas de tecnologia. É claro que esses poderes são tão ou mais impossíveis que os “mechas” japoneses, mas é quase certo que após uma descrição das habilidades do herói, vem uma explicação de como elas funcionam, usando elementos de pseudo-ciência, como por exemplo “minhas mitocôndrias absorvem energia solar e a acumulam permitindo que eu dispare rajadas de energia“, ou, “atravesso paredes alterando minha densidade“, ou ainda “a eletricidade estática é que me faz grudar nas paredes“. Por mais furada e estapafúrdia que seja a teoria, não são raras as vezes em que tal artifício acaba gerando interesse na ciência real. Não são raros os fãs de quadrinhos e desenhos americanos que já sonharam em se tornarem cientistas por exemplo. Poucos levam essa idéia a diante, é verdade, mas esse interesse gerado pela pseudo-ciência não é a única contribuição dela. Algumas vezes as idéias inicialmente absurdas dela são revistas anos depois com mais tecnologia disponível para realizá-la, e um dos maiores exemplos disso é o famoso relógio de comunicação que o detetive Dick Tracy usava nos anos trinta, coisa que volta e meia empresas tentam tornar prática. A atitude dos autores japoneses de desprezar a pseudo-ciência pode até ter alguma lógica no que se refere a ficção científica. Afinal de contas, para que perder tempo tentando explicar o inexplicável, e não apelar simplesmente à fantasia e à imaginação? O problema é quando essa atitude de fantasiar tudo sem uma pesquisa mais séria transborda para outros gêneros, como os mangás e animês de luta por exemplo. E isso não é apenas uma demonstração de preguiça ao não se pesquisar fundamentos e filosofias das artes marciais. É perigoso à medida em que dá uma noção errada e distorcida de como são e estão as artes marciais hoje. Em geral, as motivações dos personagens desse gênero de histórias se resumem a apenas angariar mais e mais poder para derrotar o maior número possível de inimigos em menos tempo, o que não corresponde ao objetivo principal das principais artes marciais hoje. Aliás, o que nunca foi o objetivo de arte marcial nenhuma.

Origens das Artes Marciais

sfa3-142331 Ao lado: Ryu, principal personagem da série Street Fighter[bb] aplica um golpe na lutadora Rainbow Mika. Ok, tá certo que liberdades podem e algumas vezes devem ser tomadas em nome da diversão, mas existem limites. Ryu é mostrado como um mestre em sua arte, o Karatê Shotokan, um praticante introspectivo e que deseja refinar e melhorar suas habilidades de combate ao máximo. E é ai que está o problema – ele é apenas isso, alguém que esta em seu máximo fisicamente e ainda quer mais poder, acumulado através de repetidos combates. Tudo o mais que compõe a prática de uma arte marcial é posto de lado. Isso sem falar que o gancho, ou uppercut, é um golpe que não existe nesse estilo de Karatê …

Para entender o que se está tentando dizer, basta analisar as lendas que cercam as origens das artes marciais. O Kung-Fu[bb], por exemplo, teria se originado de uma viagem de um monge budista indiano à China, Bodhidharma. Bodhidharma teria feito uma peregrinação ao Templo Shaolin da província chinesa de Honan, e ali se hospedado. Ao perceber que seus anfitriões estavam fracos e sem muita saúde física devido ao enorme tempo que gastavam em meditação, o monge resolveu ensinar-lhes técnicas de combate de uma casta de guerreiros indianos chamada Kshatriya, para lhes dar algum condicionamento físico. A partir dai, esses monges iriam aperfeiçoar o que haviam aprendido com Bodhidharma por séculos, desenvolvendo o que hoje conhecemos como Kung-Fu, através da observação do movimento de animais e da filosofia budista. A viagem de Bodhidharma teria dado origem à outras duas artes marciais. O Kung-Fu acabaria influenciando nativos da ilha japonesa de Okinawa, que acabaram por desenvolver o Karatê como forma de auto defesa. Tendo origem em pleno Japão Feudal, em uma época em que portar espadas era proibido a quem não fosse samurai, o Karate era uma forma dos habitantes de Okinawa se defenderem com as mãos limpas ou com instrumentos de trabalho rural que poderiam ser usados como armas simples, como pequenas foices e bastões. Ao mesmo tempo que em Okinawa se desenvolvia o Karatê, a região que hoje constitui as Coréias do Norte e do Sul se encontrava dividida em três reinos em constante guerra. Através de influências de praticantes de Kung-Fu chineses, um grupo de aristocratas e militares de um dos reinos criou um grupo de guerreiros que se chamou Hwa-Rang-Do. Estudiosos de diversas formas de combate, como esgrima e arco e flecha, os Hwarang, como ficaram mais conhecidos, também desenvolveram técnicas de combate desarmado chamadas Tae-Kyon, que dariam origem posteriormente ao Tae Kwon Do moderno. Graças aos esforços dos Hwarang, a Coréia foi finalmente unificada. O lema dos Hwarang talvez seja uma das melhores formas de entender o que realmente significa praticar artes marciais. Seu lema era “Obediência ao rei, respeito aos pais, lealdade para com os amigos, nunca recue ante o inimigo, somente matar quando não houver alternativa“. Mais do que instrumentos de combate que visem adquirir a supremacia em um combate, artes marciais são uma filosofia de vida, um método de crescimento físico e espiritual, criado com objetivos muito diferentes do que subjugar um oponente e conseguir poder pura e simplesmente. Até em artes marciais de origens mais recentes, como o Judô e o Aikidô esse princípio é bem visível. O Judô é mundialmente reconhecido como esporte, e, desde sua fundação pelo Professor Jigoro Kano no fim do século passado, ele se preocupa em conciliar o treinamento físico com o crescimento mental do participante, enquanto que o Aikidô, criado por Morihei Ueshiba no início do século XX a partir da arte samurai conhecida como Daito-Ryu Aikijujutsu, tem na auto-defesa sua maior arma, sendo constituído em grande parte por técnicas de desarme, bloqueio e esquiva.

“Eu Sou o mais Forte!!!” real bout fatal fury3

Ao lado: No quesito adaptar, divertir e manter algum respeito, a empresa de video-games SNK teve muito mais sucesso nos anos 90 que sua principal concorrente, Capcom, produtora da série Street Fighter. Em seus jogos, incluindo o arqui-famoso “The King of Fighters”, a SNK se preocupava em caracterizar seus personagens como algo mais do que máquinas de acumular poder, ou de ao menos dar uma desculpa razoável para eles se tornarem isso. Acima, Geese Howard, principal vilão da série Fatal Fury arremessa o lutador de kung-fu Hon Fu usando uma técnica real de Aikido, o “Do Céu ao Inferno”, relativamente bem adaptada ao universo dos jogos. Seria lógico pensar que, tendo um contato maior com os princípios e filosofias das artes marciais, os autores japoneses de mangá e animê pudessem construir personagens que fossem artistas marciais mais centrados e que não fossem apenas exímios lutadores, mas que também vivessem pelos princípios que as artes marciais pregam. Só que não é surpresa nenhuma para quem já leu um mangá ou assistiu um animê baseado em combates que o que ocorre é justamente o contrário. São raras as vezes em que os personagens que praticam artes marciais se afastam da imagem de um ser humano obcecado com o poder, com a idéia de se tornar mais e mais forte, superando qualquer outro que se ponha em seu caminho. E mesmo quando surgem personagens mais próximos dos objetivos das artes marciais, eles são mestres com dezenas de anos de práticas, que só compreenderam a iluminação depois de muito treinamento, e que quase que invariavelmente são mortos pelo vilão da história, um praticante obcecado por poder … Não que não existam praticantes de artes marciais violentos, obcecados ou com qualquer outro desvio de caráter que estamos acostumados a ver nos lutadores desenhados. Eles existem sim, mas são a grande minoria. Raramente alguém que não compreenda para quê e porque se treina uma arte marcial vai chegar a uma graduação elevada, desistindo em algum ponto do caminho, e usando o pouco que aprendeu da arte que praticou para perpetuar um estereotipo absolutamente falso do artista marcial. Mas é justamente essa visão que os animês e mangás acabam passando dos artistas marciais. Talvez parte dessa visão pudesse ser justificada por uma leitura superficial de um clássico escrito por Myamoto Musashi, “O Livro dos Cinco Anéis[bb]“, onde o lendário samurai dispõe os princípios de seu estilo de Kenjutsu ( esgrima japonesa ), e de sua eficiência e supremacia em relação às maneiras de se manobrar uma espada defendidas por outras escolas mais tradicionais e que foram derrotadas ao longo da vitoriosa carreira de duelista de Musashi. Rivalizando com outro clássico do combate, “A Arte da Guerra“, do chinês Sun Tzu, “O Livro dos Cinco Anéis” também é um eficiente guia estratégico, explicando como se tirar vantagem do terreno e do lugar onde se luta, como se aplicar os princípios explicados no livro para a movimentação de tropas, e um cem outro número de outras dicas para se conseguir a vitória ao menor custo possível.

Essa, no entanto, é uma visão pessoal de Myamoto Musashi sobre uma arte que é essencialmente letal, o Kenjutsu, em um período da história do Japão onde perder um combate não significava apenas isso. Em geral, perder naqueles dias significava morrer. Ser o mais forte, não significava apenas ostentar um título. Significava sobreviver por mais tempo. Musashi personificou esse ideal em seu estilo de Kenjutsu e em seus duelos, onde ele usava todo e qualquer meio para atingir a vitória, fosse atacar de surpresa, fosse matar um inimigo, enfim, fosse o que fosse.

Como já vimos, as artes marciais não foram criadas com a intenção de angariar poder. Pelo contrário, seu objetivo principal era a sobrevivência do individuo e sua auto-preservação, uma forma de se defender justamente daqueles que buscavam apenas mais e mais poder individual. O Kung-Fu foi usado pelos monges para defender seus mosteiros dos mais diversos tipos de inimigos, desde bandoleiros até diversas dinastias imperiais. Os camponeses do Japão tinham no Karate uma forma de se defenderem dos abusos dos samurais, que possuíam o direito de tirar a vida de qualquer camponês sem prestar contas, graças a sua posição social, e os Hwarang unificaram a Coréia, tornando os coreanos uma nação, um povo mais forte como um todo. Assim como os princípios de “O Livro dos Cinco Anéis”, as artes marciais possuem um forte caráter de auto-preservação em sua origem, mas não são, de forma alguma, um método infalível de conseguir vitória em um combate, nem nunca se apresentaram como isso.

Eles socam, eles chutam, eles voam …

cell33 Ao lado: Os fortões de Dragon Ball Z[bb]. O que inicialmente se iniciou como uma comédia feita em cima de elementos de uma lenda chinesa desbancou para uma das mais conhecidas e bisonhas séries de pancadaria existentes. Nesse processo, as lutas se tornaram, é óbvio, parte importante da série, mas não foram aprofundadas ou melhoradas por nada além de mais e mais força bruta, capaz de causar mais e mais estragos. Enfim, uma verdadeira corrida armamentista. E ficou pior. DBZ é um autêntico exemplo de série de sucesso que forma e influência gerações de autores e expectadores, que passaram a considerar combates e o estudo de artes marciais em mangás e animes da mesma forma que Akira Toryama mostrou em sua obra. Considere também a parcela do público infantil que se espelha na televisão para compor sua idéia de mundo, e você vai perceber que o legado de DBZ nesse campo não foi dos melhores.

De fato, parece que a proximidade dos autores japoneses com artes marciais só serviu para uma coisa. Exagero, muito exagero …

Embora a situação nos países orientais esteja longe do que se costuma ver nos filmes chineses, onde qualquer mendigo na rua é um possível mestre de um estilo muito antigo de combate desarmado, também não é assim tão incomum encontrarmos praticantes de artes marciais, pelo menos não tanto quanto aqui no ocidente. A consequência disso é que um percentual muito maior de pessoas familiarizadas com alguns aspectos das artes marciais, e, infelizmente, com os mais superficiais. Com pouco tempo de prática, algo em torno de seis meses, um aluno dedicado vai conhecer um bom número de técnicas de soco, chute, projeção e defesa, movimentos básicos, mas suficientes para impressionar ou provocar um certo estrago em brigas de rua. E, como já foi dito, praticantes que não compreendem os princípios das artes marciais raramente praticam tempo suficiente uma mesma arte para entenderem o quanto é errado e inútil espancar pessoas que não possuem condições de revidar. Desligando-se de seus dojos, esses autênticos valentões não só vão perpetuar a imagem do mal praticante de artes marciais, como também vão tornar mais e mais comuns formas corretas de se desferir um soco ou um chute. Vão ensinar a outros que jamais irão passar na porta de uma academia de artes marciais que se soca usando não apenas os músculos do braço, mas sim com o ombro e o movimento do quadril, que em um chute é preciso dobrar o joelho de maneira adequada para se conseguir força e precisão.

Assim, temos um cenário onde mais e mais pessoas deixam de se impressionar com coisas como um chute perfeito ou socos rápidos e precisos. No ocidente, o telespectador médio se impressiona com muito pouca coisa, como os coices de mula de Chuck Norris, a abertura de pernas negativa de Van Damme ou o vexaminoso golpe da garça de “Karate Kid”. Mas como impressionar um público que já viu técnicas muito mais eficientes e práticas que essas na rua? Para impressionar as pessoas então, passam a existir dois caminhos. Exagero, puro e simples, ou pesquisa. Qual o mais fácil? Qual é o mais usado? Acho que nem é preciso responder …

Verdade seja dita, não é só o mangá ou animê que exageram as artes marciais ao extremo, fazendo com que seus praticantes usem técnicas destruidoras de continentes e se movam na velocidade da luz. Os filmes chineses de artes marciais tem uma tremenda tradição em pulos impossíveis e absurdos como lutar sobre a água.

E enfim, o verdadeiro inimigo!

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Ao lado: Ilustração de capa do mangá Rurouni Kenshin, lançado no Brasil como Samurai X. O samurai Kenshin Himura é um dos personagens mais próximos de um praticante de artes marciais, alguém que usa suas capacidades de luta como um instrumento para coisas e realizações maiores do que simplesmente se tornar mais e mais forte. Além disso, há no autor dessa série, Nobuhiro Watsuki, uma certa preocupação em explicar suas técnicas e lhes dar um certo verniz de realidade, através de elementos próprios das artes marciais. Assim, coisas simples como um passo ou uma posição diferente das mãos geram uma técnica completamente diferente. Talvez essa preocupação de Watsuki seja fruto da influência dos quadrinhos americanos sobre o autor, talvez sejam simplesmente uma forma de divertir mais o leitor, mas o certo é que esse autor, mesmo sem saber, e mesmo que quase ninguém tenha seguido seus passos criou um sub-gênero no mangá, a ficção-marcial.

Mas, diferente dos personagens que normalmente vemos em mangás e animês, os personagens desses filmes raramente procuram apenas serem os melhores lutadores do mundo. Na maioria das vezes, seus objetivos nem passam perto das artes marciais. São policiais à caça de bandidos, filhos querendo vingar a morte de seus país e um cem outro números de clichês do gênero de ação, inclusive o famigerado “Aluno vinga Mestre”. Raramente as artes marciais em si são o centro da trama, o que, convenhamos, seria bem chato de ver na tela. Como explicar em um filme de ação que o principal objetivo das artes marciais é o crescimento pessoal, superar a cada treino seus limites e fazer algo que quando se iniciou o aprendizado era aparentemente impossível?

A solução adotada pelos filmes chineses é interessante, na medida em que passa vez por outra preceitos superficiais e se concentra em mostrar a plástica e beleza de golpes e combates, mas evita a idéia de tentar resumir os princípios e fundamentos de qualquer arte marcial em pouco mais de duas horas. Mesmo em 26 capítulos de vinte minutos, ou em dezenas de volumes de mangá, essa seria uma tarefa destinada ao fracasso. Compreender os espírito das artes marciais, o que elas significam e o quanto podem fazer por quem pratica uma delas é uma sensação única, muito particular para cada um, algo que deve ser vivido para que possa ser entendido. Isso, no entanto, não é desculpa para a imensa quantidade de “Gokus” e “Ryus” que infestam o entretenimento japonês, lutadores obcecados em se tornarem mais e mais fortes, em derrotarem inimigos mais e mais poderosos única e exclusivamente através de poder absoluto, e que acabam salvando o mundo por pura coincidência entre uma luta e outra. Mais divertido e funcional são personagens como os do elenco de Ranma ½, que da mesma maneira que nos filmes chineses, usam artes marciais como um pano de fundo para uma história de ação, comédia e romance. Claro que não há nenhuma preocupação em demonstrar qualquer filosofia ou apuro técnico nos golpes, mas é algo muito e muito distante do ridículo de treinos cada vez mais duros e piores para angariar mais e mais poder.

Se pudessem ser resumidas em uma forma de derrotar um ou mais inimigos, se fossem apenas uma arma, as artes marciais não teriam sobrevivido à popularização das armaduras, ao uso do arco-e-flecha e ao advento das armas de fogo. Mesmo com dezenas de formas muito mais eficientes de matar e destruir hoje em dia, artes marciais continuam sendo procuradas pelas mais diversas razões, e, com certeza, destruir não é a principal delas. Hoje, a maioria das pessoas que pratica e procura artes marciais sabe que ao iniciar o treinamento em qualquer uma delas tem início uma batalha sem fim onde cada dia traz uma nova vitória, contra um inimigo cada vez melhor e mais difícil de ser derrotado. E, em “O Livro dos Cinco Anéis”, Musashi Myamoto o define muito bem. Apesar de parecer um manual de genocídio para alguns, vez por outra Musashi deixa transparecer a sabedoria que só alguém que treinou uma vida inteira pode alcançar, e, apenas como um autêntico guerreiro poderia fazer, ele declara solenemente quem o praticante de artes marciais enfrenta a cada vez que pisa em um tatame.

“A luta, é contra o você de ontem.”

Marcus Winicius, a man … who will fight … for your love! – Dedicado ao Sensei Júlio, Sempai Wellington; ao pessoal da Arte e Movimento, e aos inestimáveis sempais-consultores-amigos Marcos José Otterço e José Otterço Jr.

Curiosidades e Glossário:

grp01Ao lado: Yu-Yu Hakushô foi quase uma cópia ideêntica de Dragon Ball Z, mas superou o original em alguns aspectos importantes. Infelizmente, nele as artes marciais não são mostradas de uma maneira muito melhor do que em DBZ. Ao menos, nem todos os personagens são loucos psicóticos sedentos por poder, e nem sempre poder absoluto foi garantia de vitória nessa série, o que já é, por si só um bom avanço.

Base: A postura de combate. Também chamado de kamae nas artes marciais japonesas, a base é o ponto zero de onde você vai usar seus golpes e técnicas. Mantê-la é a garantia de que você poderá reagir melhor aos golpes do adversário e fazer um melhor uso dos seus. Ao contrário do que se vê por ai, cada estilo de combate não possui apenas uma base. O Kung-Fu, por exemplo, possui perto de cinquenta, cada uma adequada a um determinado tipo de situação.

Chi: Ver Ki.

Dojô: Palavra japonesa que define o local onde se treinam artes marciais. Não significa necessariamente academia ou uma escola familiar, já que qualquer um desses lugares pode ser considerado um dojô.

Faixa: Forma usual de se determinar o grau de competência e dedicação de um praticante, através de uma faixa de tecido colorida ( na Capoeira usa-se um cordão ). As formas de graduação variam bastante, mas, em geral, a faixa branca é destinada aos iniciantes, e a faixa preta aos mestres. No Karatê Kyokushin Kai, os alunos são proibidos de lavar sua faixa, que, segundo os preceitos do estilo, carrega o espírito e determinação empregados pelo aluno durante as aulas.

Forma: Também recebe o nome de kata no Karatê, kati no Kung-fu e punse no Taekwondo. Consiste em uma série de movimentos de ataque e defesa, que visam exercitar concentração, trabalhar energia e aperfeiçoar os movimentos. O Tai Chi Shuan na maioria dos países do ocidente não parece ser praticado como arte marcial à primeira vista, mas os movimentos que seus praticantes fazem nada mais são do que formas do Tai Chi, que esquematizam golpes reais.

Ju-Jutsu: Traduzido como “técnica ( jutsu ) suave ( ju )”, é nome genérico aplicado à várias artes marciais japonesas até meados do século XX. Deu origem ao termo Jiu-Jitsu, que hoje é usado da mesma forma que ju-jutsu para definir diversos estilos de luta. Assim, o estilo de luta desenvolvido pela família Gracie no Brasil é um Jiu-Jitsu, e não o Jiu-Jitsu, o que explica a razão pela qual qualquer um que compare artes chamadas de Jiu-Jitsu vai encontrar tantas diferenças entre elas.

Kata: Ver Forma.

Kati: Ver Forma.

Kendô: Ver Kenjutsu

Kenjutsu: A arte da esgrima japonesa. Há um sem número de estilos de esgrima japonesa desenvolvidos ao longo da história do Japão, em geral por clãs de Samurais. Vez por outra no entanto, um ou outro samurai extremamente hábil desenvolvia um estilo próprio, como foi o caso de Myamoto Musashi e do Ni-Tenchi-Ryu. No final do século passado, com a restauração Meiji e o declínio dos Samurais como classe social, além da proibição do porte de armas, especialmente espadas, criou-se o Kendô, uma simplificação esportiva do Kenjutsu, visando perpetuar algo do Kenjutsu. Hoje, o Kendô é um esporte reconhecido, e algumas poucas academias ainda ensinam um ou mais estilos de Kenjutsu.

Ki ( ou Chi ): A energia universal que permeia tudo. Presente em cada indivíduo, a maioria das artes marciais visa justamente controlar, aproveitar ou entrar em harmonia com esta energia.

Shaolin: Templo budista onde teria sido criado o Kung-Fu por volta do ano 500 D.C. Graças aos inúmeros filmes de Kung-Fu produzidos na segunda metade do século passado que enfocavam o templo como lar dos melhores lutadores da China, o nome foi muito popularizado no ocidente. Na verdade, existiram dois templos Shaolin que promoviam o Kung-Fu, localizados nas nas regiões da China conhecidas como Honan e Fukien, sendo o primeiro mais antigo, o que o torna o possível templo da lenda.

Tatame: A “arena” onde se desenrolam os combates dentro de um Dojô.

Wushu: Não, ao contrário do que muita gente pensa, Wushu não é um estilo de Kung-Fu. Wushu é uma palavra em mandarim ( um dos principais dialetos chineses, ao lado do cantônes ) que significa arte marcial. A palavra kung-fu em cantônes significa “tempo e esforço desprendido numa atividade” ou ” grau de perfeição alcançado em qualquer área de atuação” ou ainda “conhecimento profundo de um assunto”, quando não resumido simplesmente por “habilidade”. A lenda do porquê desta palavra definir essa arte marcial no ocidente diz que, como os primeiros imigrantes chineses responsáveis pelos contatos iniciais do ocidente com o kung-fu eram do cantão, esse termo, kung-fu, acabou definindo as artes marciais chinesas, uma vez que eles tentavam fazer os ocidentais entenderem que era necessário “habilidade” para executar os movimentos do Kung-Fu.

Agora você esta pronto gafanhoto!

ranma_n Ao lado: Embora seja um exemplo dos mais antigos de como fazer uso das artes marciais no mangá, Ranma 1/2 ainda é um dos melhores. A série começou como uma comédia romântica, e se mantém fiel a isso sempre. Artes Marciais e combates ficam em segundo plano, e fazem parte da piada. Não há absolutamente nada de errado em fazer piada com tradições e filosofias, e é algo muito mais saudável do que passar ao seu público uma idéia errada do que se esta mostrando. O clima de comédia ajuda o leitor a fixar a idéia de que o que esta sendo mostrado é uma piada, muito diferente da seriedade e drama que costumam fazer parte de combates e treinos de mangá e animes de luta “sérios”.

Uma boa arte marcial é uma das formas mais completas de exercício que pode existir. É preciso força, flexibilidade, concentração e disciplina para se conseguir um bom desempenho na imensa maioria delas, o que faz com que os praticantes exercitem cada uma dessas áreas. Mesmo em artes marciais que não visam ou se utilizam de força, como o aikido por exemplo, os exercícios e técnicas ensinados em uma aula são muito mais profundos do que algumas horas de aeróbica e musculação por semana. E nenhum professor de aeróbica ou musculação pode lhe ensinar qualquer coisa como o funcionamento do Ki … Portanto, você que esta ai sentado em frente ao computador e cogitando se inicia ou não a prática de alguma atividade física, deve considerar uma arte marcial como opção.

No entanto, é preciso muito cuidado antes de ingressar em uma academia. Infelizmente, como em qualquer outro ramo de atividades humanas, picaretas existem. Para evitar isso, procure assistir aulas de uma academia na qual você esteja interessado antes de começar a frequenta-la ou pagar qualquer taxa. A maioria dos instrutores honestos vai permitir isso sem problemas. Também cheque os combates entre alunos e as atitudes do professor. Ele deve incentivar garra e concentração, mas não raiva ou competição excessiva entre dois combatentes. Além disso, é dever do mestre coibir abusos da parte de um aluno. Acidentes acontecem algumas vezes, o caminho das artes marciais é meio dolorido, é verdade, mas golpes capazes de machucar mesmo devem ser uma exceção, não a regra.

Por ultimo, veja se a academia é filiada à alguma federação da arte marcial que você deseja praticar. Federações costumam ser muito zelosas com a imagem da arte que representam, e, na teoria, não iriam se associar a um mal instrutor. E é claro que, já que o seguro morreu de velho, é uma boa que você confira junto a federação se o instrutor em questão e realmente filiado à ela.

Mesmo que você não queira efetivamente praticar uma arte marcial, pesquisar sobre o assunto é algo que vai lhe render horas e horas de diversão. Os textos que você esta lendo aqui são uma pequena amostra da tremendamente rica história das diversas artes marciais, e são tão exatos quanto qualquer informação mais baseada em lendas do que em fatos. Com alguns meses de pesquisa séria, você vai ver que há muita controvérsia quanto a origem correta de artes marciais mais antigas. E mesmo nas mais recentes, é interessante pesquisar e aprender suas origens. Abaixo, vão alguns links para iniciar essa pesquisa, e também algumas federações e academias para que você possa se informar mais sobre o assunto. Hajime!

Aikikai: Federação Brasileira de Aikido.

Confederação Brasileira de TaeKwonDo

Federação Paulista de Karatê

Federação Paulista de Kung-Fu

Instituto Niten: Site de uma das poucas redes de academias de Kenjutsu do Brasil.

O que quer dizer “Hajime”? Ora, vai pesquisar!

sem título

Ilustração mostrando uma forma antiga de combate corporal. Embora as artes marciais orientais tenham suas origens mergulhadas em lendas, é bem provável que a evolução delas tenha sido algo mais natural do que uma invenção de poucos homens ou de deuses. Praticamente todas as culturas e civilizações desenvolveram alguma forma de combate desarmado, seja como forma de defesa, um esporte ou ritual, e isso engloba desde a luta greco-romana até o uka-uka dos índios Xavantes brasileiros. Assim, muito antes de Bodhidharma chegar a China, algumas formas de combate corporal já existiam por lá, que seriam conhecidas posteriormente como boxe chinês e Tai Chi Chuan. E antes que o Kung-Fu desse origem ao Karatê, já haviam artes marciais como o Daito-Ryu Aikijujutsu no Japão. A interação nem sempre amistosa entre as diversas culturas orientais, bem como suas filosofias e costumes próprios é que possibilitaram que as artes marciais evoluíssem para algo mais do que um esporte ou uma forma de combate desarmado.

14 comentários para “Artes Marciais X Mangá, Anime e Games”

  1. Dudu.exe disse:

    Recomendo muito que você assista AVATAR: The last airbender!

    e um desenho da nickelodeon, muito melhor que muito anime, é incrivel como eles adaptaram os estilos de lutas reais para uso no desenho!

    ele tem suas caracteristicas fantasticas como poderes, mas mesmo assim é um desenho centrado, com um proposito maior do que só ser o mais forte!

    • graveheart disse:

      Avatar na lista pra assistir. :)

      • Squiter2005 disse:

        sinceramente…tem cada coisa que eu leio que às vezes dá medo…
        Cara na boa se todos os animes fossem totalmente fieis às artes marciais ninguém teria saco pra assistir, seriam novelas assustadoramente chatas..então partem para o lado que vende e não o que deveria ser certo…

        Outra, vc não acha seu uma prepotencia descabida achar que autores não pesquisão ou Lêem???? na boa cara tu realmente é uma espécie de gêninho, só que daqueles em meio à um bando de retardados…só assim pra explicar um Alter ego tão idióta num misto de “mamãe peidei cheiroso” unido com “olha aprendi a fazer o ó sentado na areia, logo então sou um super gênio”

        Na Boa como já dizem algum a internet não te deixa burro…ela deixa sua burrice mais acessivel ao mundo tornando assim notória sua deficiencia em raciocinar!

      • graveheart disse:

        Cara…. você realmente leu o texto, ou só tá reclamando?

  2. djow disse:

    Recomendo MONSTER sempre.

    Namaste!

  3. Adelio Garbazza disse:

    E eu recomendo que você e qualquer pessoa que queira ter uma desenvolvimento intelectual saudável, tem que no mínimo aprender a separar o que é do mundo real ( o mundo que a gente vive)e o que é do mundo da imaginação (anime, mangas, HQs, RPGs, Livros de ficção, filmes,desenho animado, games, etc…). Pois se você quer a verdadeira filosofia das artes marciais seja apareça, use seu blog para isso. Agora cobrar de animes, mangas, games, dentre outras coisas, este tipo de compromisso, para mim é uma perda de tempo, pois o unico compromisso que as pessoas que produzem este tipo de coisa tem é com o entreterimento. Então se eles estão certos ou errados ou se exageram demais, não importa, o que eles querem é vender seus produtos e ganhar audiência, e para isso eles usam qualquer recurso criativo para chamar a atenção das pessoas.
    Mas eu concordo com você, mangas e animes e outros, não mostram a verdadeira filosofia e tecnica das artes marciais, entretanto eu não concordo em limitar o universo criativo de qualquer obra de artistica, pois elas pertecem ao âmbito da imaginação humana, ou seja, não tem nenhum compromisso com a realidade. A arte é a expressão de uma inspiração.

  4. Jedson disse:

    Sensacional o post.
    Falou tudo o que eu sempre digo a alguns amigos que tem essa visão estereotipada das Artes marciais.

    Aquela frase do tae kwon do, não conhecia, mas agora que li, achei fantástica. Como você disse, resume bem os princípios das Artes Marciais.

    *Soco em gancho: Ura Zuki.

  5. Salsa disse:

    Só fazendo uma correção, o estilo de luta do Ryu é Ansatsuken.
    Essa coisa de Karatê Shotokan foi inventada pela Capcom of America junto com um monte de outas baboseiras(tipo Shen Long ser o mestre do Ryu, Blanka ser o Charlie, etc..)

  6. Rebeca disse:

    Texto muito bem elaborado e argumentado! ;-)

    Mas embora eu concorde contigo que a maioria dos animes e games “esculhamba” com as artes marciais, não acho que estão deliberadamente desrespeitando as mesmas. E não vejo problema em darem essas “viajadas na maionese”. É uma forma descompromissada e simplista de entretenimento? Sim, mas a graça está justamente nos exageros, nas coisas nonsense que eles inventam, e há de se levar em consideração os anseios do público-alvo. Muitos desses títulos são voltados para crianças e pré-adolescentes, ou até adolescentes, que não estão em busca de serem educados sobre as artes marciais, querem apenas uma diversão despretensiosa quando sentam à frente da TV.

    Também não creio que todo autor que tenha essa “atitude de fantasiar tudo sem uma pesquisa mais séria“, como você disse, faça isso por preguiça. Deve ser o caso de alguns, claro, mas não todos. Muitos devem fazê-lo apenas por gostarem de inventar coisas mirabolantes, por acharem que estão exercitando sua criatividade. Se todas as obras artísticas/literárias fossem totalmente compromissadas com a realidade, seria tudo muito sério. Às vezes é bom dar umas descontraídas… hehehe

    Por fim, acredito que isso não prejudique tanto assim o entendimento de como são as artes marciais na verdade. Quem realmente tiver interesse nas lutas, principalmente em praticá-las, não vai se contentar com o que viu no anime X ou jogou no game Y, vai pesquisar direitinho para ter uma compreensão correta. E os que não se interessam em buscar uma proximidade maior com esse universo, não vão se preocupar com a verossimilhança do anime X ou do game Y. Mas não significa que, por causa disso, vão acreditar que as artes marciais servem só para “angariar mais e mais poder“. Tá certo que muita gente não sabe separar que ficção é diferente de realidade, mas a maioria sabe… não vamos subestimar. xD

    Nossa, acabei fazendo um comentário gigante! Sorry! xDDD
    É que me empolgo quando leio um bom texto, que dá margem para discussões bacanas. Pois apesar de discordar em alguns pontos, eu gostei muito do artigo e da sua argumentação.

    Bjos!

  7. Katahira disse:

    Me parece texto de Cristão xiita ou artista marcial nerd e chato.

    Pseudo-ciência destrutiva é a que “os cientistas dizem…” no Jornal nacional. Ou pior que a interpretação dos jornalistas sobre um certo assunto (dito por alguns cientistas – quem estuda sabe que não há unânimidade em quase nada), é quando o jornalista mau caráter faz a pesquisa (vide matéria sobre RPG pela SBT ou Record).

    Será que as artes marciais teriam o espaço que tem hoje se não fosse por animes/mangas e etc? hmmm… Não sei, nunca vi estatística disso… E mesmo se visse nem sei se confiaria.

    Texto tendencioso é mato.

  8. Katahira disse:

    “Os filmes chineses de artes marciais tem uma tremenda tradição em pulos impossíveis e absurdos como lutar sobre a água.”

    É… Pelo visto o autor jogou tudo em um saco e vomitou. “O tigre e o dragão”, “Herói”, “A promessa” são filmes muito fodas, muitíssimo bem produzidos, com roteiro impecável. É um filme com artes marciais em que os personagens planam no ar e correm sobre a água… E… Acho que tem alguma coisinha sobre as lendas chinesas…

  9. Akka disse:

    Texto horrível e tendencioso. Se eu quisesse ver as artes marciais como elas realmente são, não assistiria a uma obra de ficção, mas iria a um campeonato de artes marciais ou algo parecido. Adoro artes marciais e adoro animes como Dragon Ball Z e YuYu Hakusho, sem nenhum problema. Quem não distingue realidade da ficção é… bem, é burro. Mais sorte no próximo post!

  10. Estava fazendo algo para lá de idiota (pesquisando o meu nome no Google para ver se realmente existo) e me deparo com meu nome neste Site/Blog (whatever) e para minha surpresa encontro um texto do meui grande amigo Marcus Winícius!!!
    Fiquei feliz de te achar na web.

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