Uma série de assassinatos brutais sem aparente relação ganhou uma nova direção quando a polícia conseguiu encontrar um padrão no método usado pelo assassino, que a polícia agora chama d’O Assassino da Indireta: ele escolhia suas vítimas a partir do twitter (uma rede de microblogs da internet). Segundo Coronel Meganha, da 104ª DP, que investiga o caso, esse é provavelmente um dos mais bizarros e assustadores casos de assassinatos em série, e não há qualquer forma da polícia identificar o responsável por esses crimes hediondos.
A onda de mortes no estado de São Paulo começou há dois meses, em Pirapora do Sul, a 205km de São Paulo, quando a primeira vítima foi encontrada, morta em casa e com um um bilhete preso ao corpo com uma faca. No bilhete, a mensagem:
Tem gente que realmente não tem o mínimo de senso de ridículo. Mas nem O MÍNIMO.
Poucos dias depois, um assassinato ocorria na capital, com modeus operandi, mas agora com a mensagem escrita com batom no espelho da casa da vítima:
Já notamos que você quer chamar a atenção. só não estamos vendo você dar bons motivos pra que ela seja toda sua.
Novos assassinatos voltariam ao longo das semanas, em várias cidades diferentes, sempre com mais e mais mensagens enigmáticas, mudando apenas a forma do assassinato e como a mensagem era encontrada:
CIENTIFICAMENTE COMPROVADO: falta de sexo causa hostilidade desnecessária.
Algumas pessoas dão motivos para que as interpretem errado e depois acham ruim. Tsc… Tsc… Tsc….
Como tem gente inutil e insuportavel no mundo , tomanocu
Nessa altura a polícia já investigava a ligação entre esses crimes, sem grande sucesso.
“Estávamos simplesmente de mãos atadas, não havia nada que correlacionasse as vítimas, a não ser o mesmo modus operandi do assassino.” diz Cel. Meganha “Entrevistamos diversos parentes e amigos das vítimas, tentamos encontrar algo de comum na vida delas, mas não havia nada que identificasse um padrão. Tentamos procurar por livros, filmes, qualquer coisa onde essas mensagens pudessem aparecer, mas não encontrávamos nada. Estávamos de mãos atadas, à merce de um assassino que parecia cometer crimes em série sem um motivo aparente”.
Tudo mudou quando a perícia de um dos crimes, durante a investigação, encontrou a mesma mensagem deixada pelo assassino no computador da vítima. Essa mensagem encontrava-se no perfil do twitter da mesma.
“A partir daí, tínhamos um ponto de partida. Uma rápida investigação mostrou que todas as vítimas possuiam uma conta no site twitter, e também haviam deixado mensagens com indiretas dias antes de serem mortos” – continua Cel. Meganha
Mas a identidade do criminoso continua um mistério e o fim desses crimes horrendos ainda está longe de acabar. Não há ligações estranhas no celular das vítimas. Não há cartas, emails ou qualquer tipo de aviso ou ameaça. Câmeras de vigilância não mostram qualquer encontro das vítimas com alguma pessoa estranha. E, o que é pior, o assassino é virtualmente invisível: durante a investigação descobriu-se que nenhuma das vítimas possuía um follower em comum. (Nota: Follower é o nome dado a quem ‘segue’ seu perfil no twitter – você pode seguir e ser seguido por várias pessoas diferentes, até mesmo quem você nunca conheceu pessoalmente).
“O twitter é aberto, tanto para criação de perfis quanto para a leitura de perfis” – diz o perito em internet forense Epaminondas Torvalds – “Tendo uma conta de email, mesmo uma gratuíta, você pode criar quantos perfis quiser, é possível criar milhares de perfis diferentes. Na verdade, você nem mesmo precisa seguir alguém para ler o que ele escreve. Os perfis por padrão são abertos, e é uma escolha do usuário fechar as atualizações para um grupo restrito.”
Mas seria possível que apenas através do twitter um assassino pudesse saber onde mora e quais os hábitos de uma determinada pessoa? Epaminondas explica:
“Não é difícil, muitas pessoas dão detalhes pessoais em excesso não apenas no twitter, mas em outros locais da rede também. É o que nós chamamos de over-sharing, o compartilhamento excessivo de informações com as pessoas, como detalhes sobre onde você mora, seus hábitos diários, onde almoça, quando está em casa e muito mais. A situação é ainda pior com aplicativos como o foursquare, onde através de um simples celular você diz onde está, até mesmo se está ou não em casa”.
A polícia, que já vem chamando esse caso de “Assassino da Indireta” está completamente perdida. Desde que a investigação efetivamente começou, poucas ações geraram resultado:
“Tentamos fechar o site Twitter, e até conseguimos que o site Twitter Brasil fosse tirado do ar, mas os responsáveis alegam que esse site não tem qualquer relação com o Twitter.com original, apesar de levar o nome do serviço “ – diz Cel. Meganha – “estamos tentando fazer com que os responsáveis brasileiros cooperem com as investigações e liberem qualquer pista que possa nos levar ao assassino, mas eles continuam alegando que não tem relação alguma com o serviço.”
“Em uma segunda etapa, pensamos em pedir às pessoas que deixassem de agir como imbecis na internet, mas percebemos que isso seria impossível. Mesmo sabendo que há um asssassino em série à solta, as pessoas continuam mandando indiretas abertamente, e é impossível impedí-las. No máximo, podemos alertá-las, mas já sabemos de pelo menos três novas vítimas encontradas depois que descobrimos o modus operandi do assassino”.
Fonte: Folha de São Paulo