Artes Marciais X Mangá, Anime e Games
Dias atrás, enquanto limpava meu HD para instalar o Windows 7, encontrei uma pasta com arquivos que eu julgava perdidos: vários backups e originais da época em que eu mantinha o Anime Point com a ajuda de um grande amigo. O post abaixo é um texto escrito a quatro mãos, em 2000~01, sobre artes marciais em animes e games. Como ainda não perdeu a validade (apesar da maioria dos jogos e animes já ter mais de 10 anos de idade…), e o texto é REALMENTE bom, resolvi republicar aqui, com algumas pequenas alterações. Enjoy!
Uma coisa pela qual as produções japonesas, sejam mangá e animê, não costumam primar é pelo apuro científico. Ou, melhor dizendo, pelo uso de uma coisa que alguns escritores costumam chamar de pseudo-ciência, que consiste em “explicar” através de teorias pouco conhecidas ou obscuras poderes e fenômenos fantásticos em uma história. Por exemplo, a imensa maioria dos “mechas” criados no Japão é cientificamente impossível, seja por uma questão de peso, energia necessária para movimentar uma estrutura do tamanho de um prédio, armamentos mirabolantes, ou, o que é mais comum, por tudo isso junto e um pouco mais.
Ao lado: Cavaleiros do Zodíaco – Jovens japoneses canalizando uma energia universal através de técnicas marciais para proteger uma deusa grega … Dizendo assim dói, não? Além do grau normal de fidelidade da maioria das produções japonesas para com artes marciais, Cavaleiros ainda altera o nome de ki para cosmo. Exemplo perfeito de como tentar parecer novo e dispensar alguns dias de pesquisa. Já no ocidente, poderes de super-heróis são explicados como poderes vindos de mutação genética, “acidentes” com radiação ou armaduras entupidas de tecnologia. É claro que esses poderes são tão ou mais impossíveis que os “mechas” japoneses, mas é quase certo que após uma descrição das habilidades do herói, vem uma explicação de como elas funcionam, usando elementos de pseudo-ciência, como por exemplo “minhas mitocôndrias absorvem energia solar e a acumulam permitindo que eu dispare rajadas de energia“, ou, “atravesso paredes alterando minha densidade“, ou ainda “a eletricidade estática é que me faz grudar nas paredes“. Por mais furada e estapafúrdia que seja a teoria, não são raras as vezes em que tal artifício acaba gerando interesse na ciência real. Não são raros os fãs de quadrinhos e desenhos americanos que já sonharam em se tornarem cientistas por exemplo. Poucos levam essa idéia a diante, é verdade, mas esse interesse gerado pela pseudo-ciência não é a única contribuição dela. Algumas vezes as idéias inicialmente absurdas dela são revistas anos depois com mais tecnologia disponível para realizá-la, e um dos maiores exemplos disso é o famoso relógio de comunicação que o detetive Dick Tracy usava nos anos trinta, coisa que volta e meia empresas tentam tornar prática. A atitude dos autores japoneses de desprezar a pseudo-ciência pode até ter alguma lógica no que se refere a ficção científica. Afinal de contas, para que perder tempo tentando explicar o inexplicável, e não apelar simplesmente à fantasia e à imaginação? O problema é quando essa atitude de fantasiar tudo sem uma pesquisa mais séria transborda para outros gêneros, como os mangás e animês de luta por exemplo. E isso não é apenas uma demonstração de preguiça ao não se pesquisar fundamentos e filosofias das artes marciais. É perigoso à medida em que dá uma noção errada e distorcida de como são e estão as artes marciais hoje. Em geral, as motivações dos personagens desse gênero de histórias se resumem a apenas angariar mais e mais poder para derrotar o maior número possível de inimigos em menos tempo, o que não corresponde ao objetivo principal das principais artes marciais hoje. Aliás, o que nunca foi o objetivo de arte marcial nenhuma.
Origens das Artes Marciais
Ao lado: Ryu, principal personagem da série Street Fighter aplica um golpe na lutadora Rainbow Mika. Ok, tá certo que liberdades podem e algumas vezes devem ser tomadas em nome da diversão, mas existem limites. Ryu é mostrado como um mestre em sua arte, o Karatê Shotokan, um praticante introspectivo e que deseja refinar e melhorar suas habilidades de combate ao máximo. E é ai que está o problema – ele é apenas isso, alguém que esta em seu máximo fisicamente e ainda quer mais poder, acumulado através de repetidos combates. Tudo o mais que compõe a prática de uma arte marcial é posto de lado. Isso sem falar que o gancho, ou uppercut, é um golpe que não existe nesse estilo de Karatê …
Para entender o que se está tentando dizer, basta analisar as lendas que cercam as origens das artes marciais. O Kung-Fu, por exemplo, teria se originado de uma viagem de um monge budista indiano à China, Bodhidharma. Bodhidharma teria feito uma peregrinação ao Templo Shaolin da província chinesa de Honan, e ali se hospedado. Ao perceber que seus anfitriões estavam fracos e sem muita saúde física devido ao enorme tempo que gastavam em meditação, o monge resolveu ensinar-lhes técnicas de combate de uma casta de guerreiros indianos chamada Kshatriya, para lhes dar algum condicionamento físico. A partir dai, esses monges iriam aperfeiçoar o que haviam aprendido com Bodhidharma por séculos, desenvolvendo o que hoje conhecemos como Kung-Fu, através da observação do movimento de animais e da filosofia budista. A viagem de Bodhidharma teria dado origem à outras duas artes marciais. O Kung-Fu acabaria influenciando nativos da ilha japonesa de Okinawa, que acabaram por desenvolver o Karatê como forma de auto defesa. Tendo origem em pleno Japão Feudal, em uma época em que portar espadas era proibido a quem não fosse samurai, o Karate era uma forma dos habitantes de Okinawa se defenderem com as mãos limpas ou com instrumentos de trabalho rural que poderiam ser usados como armas simples, como pequenas foices e bastões. Ao mesmo tempo que em Okinawa se desenvolvia o Karatê, a região que hoje constitui as Coréias do Norte e do Sul se encontrava dividida em três reinos em constante guerra. Através de influências de praticantes de Kung-Fu chineses, um grupo de aristocratas e militares de um dos reinos criou um grupo de guerreiros que se chamou Hwa-Rang-Do. Estudiosos de diversas formas de combate, como esgrima e arco e flecha, os Hwarang, como ficaram mais conhecidos, também desenvolveram técnicas de combate desarmado chamadas Tae-Kyon, que dariam origem posteriormente ao Tae Kwon Do moderno. Graças aos esforços dos Hwarang, a Coréia foi finalmente unificada. O lema dos Hwarang talvez seja uma das melhores formas de entender o que realmente significa praticar artes marciais. Seu lema era “Obediência ao rei, respeito aos pais, lealdade para com os amigos, nunca recue ante o inimigo, somente matar quando não houver alternativa“. Mais do que instrumentos de combate que visem adquirir a supremacia em um combate, artes marciais são uma filosofia de vida, um método de crescimento físico e espiritual, criado com objetivos muito diferentes do que subjugar um oponente e conseguir poder pura e simplesmente. Até em artes marciais de origens mais recentes, como o Judô e o Aikidô esse princípio é bem visível. O Judô é mundialmente reconhecido como esporte, e, desde sua fundação pelo Professor Jigoro Kano no fim do século passado, ele se preocupa em conciliar o treinamento físico com o crescimento mental do participante, enquanto que o Aikidô, criado por Morihei Ueshiba no início do século XX a partir da arte samurai conhecida como Daito-Ryu Aikijujutsu, tem na auto-defesa sua maior arma, sendo constituído em grande parte por técnicas de desarme, bloqueio e esquiva.

