DragonBall, a prova de que a Evolução nem sempre é para melhor
Lembro exatamente quando o filme live-action do Street Fighter foi lançado nos cinemas. Depois de semanas sem dormir direito pensando no filme, saí correndo da escola e fui direto para o shopping. Eu simplesmente não queria apenas ver o filme no dia da estréia: eu queria ver a PRIMEIRA sessão. Queria ser um dos primeiros da cidade a ver aquele que provavelmente seria O filme da minha adolescência nérdica gamerística. Duas horas depois, saí da sala tão decepcionado que só tinha uma coisa na cabeça: avisar a maior quantidade possível de amigos da bomba, e evitar que elas gastassem o preço do ingresso com algo que não vale nem o tempo que se perde assistindo. Se você já viu o filme, sabe do que estou falando. Personagens completamente fora do lugar, atores rasos e um roteiro vergonhoso com mais furos que minha meia. E DragonBall – Evolução é EXATAMENTE assim. Um filme que é vergonhoso enquanto adaptação, e sofrível como filme de ação. Desde as primeiras notícias sobre a adaptação eu já tinha certeza de que o filme seria fraco, mas nada poderia me preparar para o que estava por vir. Sério, encaro como missão pessoal evitar que vocês, queridos leitores, NÃO assistam essa bomba. Para começar: DragonBall
sofre do mesmo mal que Street Fighter e até mesmo da versão live-action do He-man
(que eu vi no cinema, vejam só…) – não é uma adaptação do conceito original, é uma história genérica qualquer com personagens que vagamente lembram os originais. Sério, não há UM personagem ali que lembre, tanto na personalidade quanto no background, os originais. Goku é um adolescente de quase 18 anos que vive sonhando pela garota mais popular da escola. Bulma tá ali só pra ocupar espaço, assim como Yamcha. E o mestre Roshi, que no original é um dos lutadores mais fortes e respeitados do mundo (até a chegada de Goku e cia.), além de um tarado de marca maior, vira apenas um bobão zen-budista que só faz repetir “seja você mesmo, lembre-se de quem você é, bláblábláblá insira filosofia ocidental aqui”. Um porre.
E as atuações? Mesmo Chow Yun-Fat, que é um dos poucos atores ali com uma boa bagagem de filmes, está canastríssimo, de doer. Todo o resto parece ter se graduado na Escola Cigano Igor de Belas Artes, sem expressões, sem emoções, sem um pingo de motivação em fazer uma atuação decente. Sério, se você ainda tiver coragem de assistir esse filme, repare no Yamcha e na Bulma, e tente discordar da minha opinião.
Agora, o pior: o roteiro. É tudo tão cheio de clichês, tão padronizado, tão comum, que o finado Homem Chavão provavelmente voltará a blogar se assistir esse filme. Vejamos: jovem garoto treinado pelo avô/tio/pai/sensei genérico desde criança nas artes marciais sente-se deslocado do mundo, e sofre constantes abusos na escola (sem revidar, pois ele aprendeu que lutar é errado), até o momento em que, por fugir das suas responsabilidades, o avô/tio/pai/sensei é assassinado pelo vilão genérico. Munido da vontade de se vingar, o garoto parte atrás do vilão, encontrando vários amigos pelo caminho, e descobrindo ser parte de algo maior, a própria força interior, que será usada no final, quando ele duvidar da sua própria capacidade durante a luta final. Após resolver suas dúvidas pessoais, o garoto consegue finalmente vencer o vilão, salvando o dia.
Na boa, isso é tão genérico que poderia ser um filme qualquer, não DragonBall. Acho que se puxar pela trama no IMDb devem aparecer uns quarenta filmes assim, lançados só no ano passado.
OK, a história é genérica e toda a trama em si é corrida (pudera, menos de uma hora e meia de filme…). Mas ainda não chegamos ao pior: os furos no roteiro. Sério, se você prestar atenção, vai perceber que o filme todo é um queijo suíço gigante. Querem exemplos?
- Bulma tinha um RADAR PARA ENCONTRAR as Dragon Balls, mas desmonstrou surpresa ao descobrir que haviam várias esferas, não apenas a que foi roubada do pai dela. Sério mesmo que em nenhum momento ela olhou pro radar e pensou “ei, tem sete esferas aqui, será que é bug?”
- Goku está indo para a festa da Chi Chi. Do nada, ele olha para a esfera que ganhou do avô, põe no bolso, e leva. Pra quê? Pra nada, pro Picollo chegar lá e matar o avô dele. O roteiro assim exigia.
- Ainda sobre essa parte: Picollo demonstra o tempo todo que consegue sentir (ou rastrear onde estão as esferas). Então PORQUE DIABOS ele foi direto pra casa do Goku, se a esfera nem estava lá? A cena é deprimente: “É, a esfera não está aqui. Mas vou matar esse velho e destruir a casa, por que eu sou O VILÃO. Aliás… já que não encontrei essa esfera, melhor procurar as outras, depois eu volto….”
- Mestre Roshi diz “Eu treinei seu avô, Goku” – considerando a idade do Gohan, só posso considerar que ele começou a treinar com 50 anos. Ou isso, ou Roshi tem uns dois séculos de idade….
- Chi Chi é tipo o Juíz do Medabots: Não importa onde os personagens estejam, ela SEMPRE está por perto. Montanha? Tá lá treinando. Cidade? Campeonato de artes marciais. Templo perdido no meio do nada? Tava andando por aí, se perdeu e resolveu pedir informações. Coincidentemente, no mesmo templo onde os “heróis” estavam.
- Aliás, que PUSTA COINCIDÊNCIA a vilã (que é irmã do Rodrigo Santoro, mal abre a boca…) estar usando a MESMA roupa da Chi Chi nessa cena, não?
- Luta final. O carro cai (não perguntem) e do nada Goku aparece com o uniforme conhecido mundialmente. “Olha, o vilão está quase conseguindo realizar seus plano maléficos, vou colocar aqui minha roupa de luta, ou as crianças não vão me reconhecer” – boa, campeão.
- Goku vira o Oozaru (que no desenho é um macaco gigante, no filme vira o lobisomem da novela “Os Mutantes“), arrebentando por completo a roupa. E o que acontece quando ele volta ao normal? A roupa está em perfeito estado, com a faixa na cintura AMARRADA! Eu preciso de uma parada dessas!
Percebam, eu nem mesmo estou citando as diferenças entre o mangá e o filme: estou falando dos erros na história!
Sobre os efeitos especiais, nada a declarar. Pensei em fazer o comentário óbvio de que eles estão perfeitos para um filme da década de 90. Mas é engraçado comparar com um filme chines de 1989 e perceber que ele consegue trazer efeitos mais convincentes:
Link do vídeo pro povo do feed não reclamar…
Resumindo: DragonBall Evolution é uma porcaria. Uma história chata, previsível do começo ao fim, com atores inexpressivos e péssimos efeitos especiais. Talvez faça a alegria da garotada na faixa dos 5~6 anos, mas tenho pena dos pais que forem levá-las ao cinema.
Assim como tenho pena dos pobres adolescentes nerds que irão para o cinema, e sairão de lá decepcionados. Cada geração tem o seu Street Fighter. DragonBall: Evolução é o Street Fighter dessa geração.
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