Lógico eu podia ser um sacana

Por , 25 de junho de 2002 2:18


Lógico, eu podia ser um sacana. Isso é óbvio. Em vários sentidos, com várias pessoas. Aliás, poucas vezes eu fui realmente mal, e quando fui, fiz a pessoa chorar de verdade. Talvez a maré de decepções, traições, mentiras, falsidade e desilusões em que estou metido desde que o médico disse “É menino!” ao invés de gritar “Está morto, joguem no lixo. Próximo!” tenha criado um lado bem frio em mim. Um lado suficientemente frio para fazer com que uma garota que me adorava dissesse “dava pra congelar a escola inteira com esse seu olhar, Paulo….” com um certo temor. Um lado que me fez pegar o telefone duas vezes desde que descobri o autor de algumas peças contra minha pessoa, mesmo que tal ligação pudesse me custar uma valiosa amizade. E uma decepção a mais para uma pessoa que já sofreu o suficiente.

Não nego que tenho esse lado. Aliás, até gosto dele. Consigo manter meu lado “Jekill” tranquilo com a ajuda dele. Mando tudo pra lá. Pro meu lado frio. E eu sei que ele também adora receber um pouco do que não mando pra ele. Medo é um exemplo claro. Medo de dizer o que penso para alguém. Medo de me atrasar uma vez que seja para alguma coisa. Medo de tentar. Medo.

O que me leva a um padoxo interessante. Ele parece se alimentar do meu medo. E o meu maior medo é que um dia ele não queira mais ficar lá, no canto dele, simplesmente aceitando o que lhe dou. Tenho medo de que esse meu lado cresça até um ponto onde ele queira sair de vez em quando, pra ver como é quando o sol bate na sua cara. Minha maior falha foi tê-lo deixado sair algumas vezes, mesmo que sobre controle. Ele deve ter gostado de se sentir o maioral, mesmo que da minha consciência. EU teria gostado. E ele sou eu, em uma última análise.

Medo.

Medo de que eu me torne uma versão real do Fei Wong, com a diferença básica de que o meu Gear não ganharia um visual invocado quando meu Id aflorasse. Mas, com certeza, eu acabaria fazendo com que as pessoas que amo sofressem. Mas… Se ele gosta do meu medo, como eu fico?

Maldito. Ele pensou em tudo. Como eu teria pensado. Jogar xadrez consigo mesmo é bem legal, como já discuti com o Marcel. Mas não tem tanta graça quando o jogo está na sua mente. E eu já percebi que, se quiser ser feliz, se quiser continuar meu trabalho, se quiser continuar próximo dos meus amigos, se eu quiser conquistar a garota que eu amo, preciso derrotá-lo.

Mas… como se derrota alguém que é tão esperto do que você, conhece todas as suas fraquezas, e não tem medo de explorá-las na pior hora?

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